Não acredito em nenhum Deus que não saiba dançar

“Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções. Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.

E quando vi o meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo e solene: era o espírito do pesadelo. Por ele caem todas as coisas. Não é com cólera, mas com riso que se mata. Adiante! matemos o espírito do pesadelo! Assim falava Zaratustra”

Tomamos de Nietzsche o título para a sessão que, pelo segundo ano consecutivo, a Semana dos Realizadores dedica à produção brasileira de filmes de artistas contemporâneos. Neste momento em que o Brasil passa por uma de suas piores crises ética, moral, social e identitária, foi-nos inevitável buscar aqueles filmes que confrontam os nossos pesadelos presentes e passados com uma promessa de alegria. Essa promessa não parte, no entanto, da denegação do nosso presente ou da recusa infantil de enfrentar nossa tragédia; nem ela se confunde com uma esperança vã e populista por dias melhores.

Os artistas aqui apresentados habitam e ocupam um mundo destroçado e assombrado por todas as violências passadas e ainda cotidianas, oferecendo em troca aquilo que podem diante da impotência: corpos, dança, delírio – pequenas comunhões para resistir à aniquilação. Nesses filmes, as ruínas de nossos projetos modernos e as paisagens distópicas anunciadas em espaços públicos abandonados são ocupadas por fantasmas que nossos progressos não lograram – e não quiseram – salvar: loucos, negros, transexuais, prostitutas, seres híbridos. Entre fantasmas e sobreviventes, esses corpos dançam, gritam e ressensualizam um mundo no qual parece haver cada vez menos espaço para as potências da diferença. Não sem uma melancolia, eles reclamam seu direito à existência e ao amor.

Se tomamos de Nietzsche a inspiração para o título desse sessão, é ao som de Caetano que esses filmes convidam o deus de Zaratustra a dançar. Mais especificamente à canção que, há exatos cinquenta anos, na alvorada de um dos períodos mais violentos da história brasileira, e marcando o principio da tropicália, apontava para uma brecha de existência, talvez a única possível, entre as pernas, bandeiras, e dentes, sob um sol de crimes e caras de presidentes. Se a história se repete como farsa, que sigamos, mais uma vez, com os olhos cheios de amores vãos, por que não? A alegria é a prova dos nove.

 

Curadoria de Patricia Mourão

Cais do corpo
dir: Virginia de Medeiros
7' . 2015 . RJ
Classificação 16 anos

Realizado durante a “revitalização” da Praça Mauá, na zona portuária do Rio de Janeiro,  uma abordagem sobre as transformações do lugar a partir do universo da prostituição, instituído na região desde 1930. Aqui a prostituição é vista em sua [...]

Exibição: 18 de novembro às 17h

Rio de Janeiro
dir: Luiz Roque
5' . 2017 . SP
Classificação 14 anos

Do Aterro do Flamengo, de um tempo indefinido, uma deusa negra ancestral observa o incêndio que, em 1978, destruiu praticamente todo o acervo do MAM. Encarnando todos os corpos negros e transexuais esquecidos, esse fantasma vingativo ocupa e erotiza o que resta de [...]

Exibição: 18 de novembro às 17h

Superquadra-Sací
dir: Cristiano Lenhardt
10' . 2015 . PE
Classificação 14 anos

Jussaras e Guaracys aceitam seus santos e emanam suas bênçãos seguindo impulsos sexo-sonoros. Opondo em seu título o ápice do racionalismo modernista brasileiro (as superquadras de Brasília) e um personagem de nosso folclore associado à desordem e ao [...]

Exibição: 18 de novembro às 17h

Teta lírica
dir: Marie Carangi
5' . 2016 . PE
Classificação 14 anos

Tendo a seu fundo uma concha acústica em desuso, Marie Carangi, produz sons em um teremim com o movimento de seus seios. Ressaltando a dimensão utópica e falida de um projeto de modernidade impresso na arquitetura, o filme confronta e subverte o branco da concha [...]

Exibição: 18 de novembro às 17h

Faz que vai
dir: Bárbara Wagner, Benjamin de Burca
12' . 2016 . PE
Classificação 16 anos

Tomando o nome de um passo de Frevo que simula um momento de instabilidade, Faz que vai retrata quatro bailarinos em seus modos de articular uma forma de tradição popular em questões sócio-econômicas e de gênero. Como uma série de anotações sobre a relação [...]

Exibição: 18 de novembro às 17h

Funk Staden
dir: Dias & Riedweg
14' . 2007 . Alemanha, Brasil
Classificação 14 anos

Maurício Dias e Walter Riedweg convidaram um grupo de cariocas  para reencenar, em diálogo com a cultura do funk, nove ilustrações de Hans Staden, incluídas em um de seus livros. Considerado o primeiro relato de viagem ao Brasil, o livro descreve os dias que o [...]

Exibição: 18 de novembro às 17h

Archichroma (new Romanticism to somber times)
dir: Pedro França
17' . 2017 . SP
Classificação 16 anos

Um sonho diurno, de estrutura precária, no qual um fantasma delirante e absurdo possui o prefeito de São Paulo, fazendo-lhe dizer palavras de um monstro. Aludindo em seu título aos efeitos de chroma key, à arquitetura utópica dos anos 1960, e ainda à ideia que [...]

Exibição: 18 de novembro às 17h