Como Mito Desmontando, Amanhã Recomeço (10)

Foi entre lágrimas, noites mal dormidas, atualizações ininterruptas no feed de notícias e vícios alimentados por um terror que invadia a alma e os sonhos para esconder-se nos ossos e no inconsciente que essa programação foi finalizada. O “mito” no título do programa, claro, não se refere ao candidato que parte do eleitorado saudava pela “coragem e autenticidade” com que normalizava e propagandeava o inaceitável, mas à poesia e à arte. “qual mito desmontado. / amanhã recomeço” são os dois versos finais de um poema de 1945, de Carlos Drummond de Andrade:  Elefante – reencontrado, por um feliz acaso, em um dos filmes que integra esse programa, Ventura, de Janaina Wagner.  Um elefante fabricado com madeira, “paina, amor e doçura” sai às ruas em busca de amigos. Alegoria para o trabalho da arte e da poesia, disfarce necessário e desejado de um poeta em um mundo enfastiado que não crê mais em bichos nem em coisas, esse elefante volta, tarde de noite, fatigado, patas vacilantes e desfaz-se no tapete, “qual mito desmontado”. O poema termina com a promessa do poeta de reapresentar no dia seguinte seu mito ao mundo: “amanhã recomeço”.

Essa disposição – possivelmente mais nonsese ou resiliente que utópica –  para o recomeço e a ficção talvez seja uma das marcas da produção artística deste país, desde sempre sob dois humores e dois signos: o desespero e a esperança; o fim do mundo e o país do futuro.

Ainda que seguindo pesquisas muito particulares, as artistas reunidas neste programa lidam com a ambiguidade e a contradição colocadas entre construção e destruição, fim e recomeço, ou começo e fim. Não por acaso, vários dos filmes abordam, em chave metafórica ou literal, o terremoto – possivelmente o fenômeno da natureza que melhor sintetiza a dobra entre destruição e refundação. Não importa sua dimensão, não importa quanto abale ou desmonte: a um terremoto sempre segue a reconstrução. Também há muitas maquetes, modelos, plantas baixas, esboços e formas esculpidas – alguns produzidos pelas artistas, outros encontrados em arquivos. Assim, em uma chave histórica, Clara Ianni toma plantas baixas da construção de Brasília e registros de obras de arte e empreende uma volta no tempo para desenterrar e encontrar as contradições ou violências silenciadas em momentos definidores da nossa modernidade e do otimismo do nosso projeto moderno; Letícia Ramos constrói maquetes para simular mundos perdidos ou nunca encontrados; Janaina Wagner é atraída pelo que há de absurdo, desperdício ou despropósito no nosso desejo construtivo; e Barbara Wagner e Benjamin de Burca, num registro talvez mais distante do trabalho das outras artistas, celebram e ostentam a dimensão artificial e construída de seus cenários e retratos.

Seja construindo ou inventando mundos, seja olhando para momentos de fundação – e tão conscientes dos riscos de abalo, fissuras, ventania ou terremoto quanto da desproporção entre a energia dispendida e o resultado alcançado –, as artistas aqui reunidas fazem voto de fé na capacidade e necessidade humana de inventar, fabular, projetar e edificar. Se toda construção traz em si a marca de sua destruição, persistamos, continuemos. E a cada destruição, derrota ou terremoto, fabularemos mais uma vez, dia a dia, manhã a manhã um novo amanhã. Seguimos.