Hoje em dia podemos perceber uma certa banalização da ideia, e da palavra, curadoria. Está lá em anúncios de imobiliárias, cestas de alimentos, vestuário e outros, num estado contemporâneo de saturação de estímulos, conteúdos, informações e produtos,  onde a curadoria funcionaria como um filtro de interesse de um consumidor. Isso só reforça a importância da reflexão sobre a atividade curatorial no seu meio de pertença, as artes. Porque a curadoria não é somente uma escolha. Um conjunto de obras, ou de filmes a serem apresentados, será sempre um recorte da realidade, carregando as experiências de quem fez essa seleção e estabelecendo um ponto de vista sobre o mundo. O cinema, desde a sua origem como uma “invenção sem futuro”, só existe enquanto evento e em relação ao espectador/plateia. Um filme só se completa como objeto artístico quando é visto. E a curadoria é essa mediação entre artista e público, é “dar a ver” os filmes. Ver junto. Sentir em comum.

Assim, a curadoria também tem uma intenção criadora, é um gesto criativo em si, e, por isso, é um ato político. Daí a importância da diversidade de um corpo curatorial, em diálogo com a sociedade, suas transformações sociais e culturais e as obras que as espelham. Essa Convocatória quer contribuir para que a curadoria de cinema, entendida como um lugar de poder, trabalhe na construção de imaginários outros, diversos, garantindo espaços contra-hegemônicos e não-homogêneos para a crítica artística e o debate estético.

“Ir em direção ao outro, fazer com que outro diga a verdade do que se sente ou do que aconteceu – esse deslocamento, essa mudança funciona como um condensador da experiência”. Ricardo Piglia em “Uma proposta para o novo milênio”

Voltada para a difusão do cinema brasileiro contemporâneo e promoção de debates acerca das questões ético-estéticas e sócio-políticas do audiovisual, a Semana, que articula ações de democratização e descentralização do acesso à cultura, finaliza o ano com a Convocatória de formação curatorial. Com foco em curadores das periferias, comunidades tradicionais e grupos de vulnerabilidade social, a Formação curatorial é um espaço para a experimentação de discursos e formatos sobre o olhar, que pretende somar, ao corpo curatorial da Semana, novas curadoras e curadores, de todas as idades, dos mais diversos territórios.

Esse projeto conta com o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/Secretaria Municipal de Cultura e da Secretaria Especial de Cultura, do Ministério do Turismo e do Governo Federal sob as chancelas do PRÊMIO A PROJETOS DE FOMENTO A TODAS AS ARTES.