DENTRE AS PENUMBRAS EM QUE ME ENCONTRO – no caminho do mundo físico ao digital 

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Existem milhares de chaves possíveis para se discutir estes filmes, mas gosto de pensar em como o diálogo entre obras tão diferentes como as de Edna Toledo, Grace Passô, Wilssa Esser e Vitória Cribb pode guardar a experiência de um caminho que se desloca do mundo físico, como aquele pensado em Ayé (Ayé com minha mãe Elenice Guarani, max wíllà morais, 2020)  para o mundo digital, virtual, feito de códigos, dados e universos artificiais. Este caminhar nos permite perceber as potências e contradições de corpos que expandem suas presenças e se reelaboram através do olhar como uma ação, ainda que entre as luzes e sombras das Imagens.

 

Edna Toledo apresenta Edna (2018) como filme de realização do curso de Filmes Urgentes no projeto Anti: Residência Fílmica Antifascista (2018) – uma imersão de um mês do coletivo Anarca Filmes no Espaço Saracvra. Para realizar e exibir o filme, a cineasta encontrou obstáculos psico-motores, advindos da Fibromialgia que lhe acompanha e que a impediu de prosseguir em encontros com o resto da turma e dificultou sua ida à estreia. Seu filme parece dizer que é a partir do seu corpo que percebe, em certo momento, obstáculos internos e externos, e os articula como arestas dos percursos de sua vida.

 

O filme Edna (2018) pode ser lido pela hibridização radical entre o documentário experimental (cinema) e a videoperformance (arte contemporânea), visto que é indissociável pensar neste trabalho, o registro das imagens sem a performatividade do corpo e vice versa.  Com uma mão Edna revira e transforma sua vida e com a outra registra a sua transformação. 

 

Edna Toledo realiza um filme cujos relevos e entre-linhas eu não havia assistido na história do documentário brasileiro. Durante quinze minutos de plano sequência, imagens e objetos pessoais  são sobrepostos, integralmente ou parcialmente, frente à câmera, em um exercício de edição mecânica em tempo real, dentro do próprio plano – como um filme de imagens de arquivo. A montagem acontece não por um software, ou moviola, mas pelo próprio corpo, gesto e performatividade da autora, que de alguma maneira instaura em nossa frente uma ilha de edição. Ao passo que as imagens disputam o quadro, uma narração quase sem silêncios da própria cineasta, vasculha as lembranças impregnadas nas materialidades das imagens e objetos – expostos para si e para nós. É a partir do relato que se expressa a memória e o movimento de reinventá-la, percebendo-as novamente, propondo transformação sobre o imaginário que aquelas imagens constituem em sua subjetividade, atribuindo outros significados, outras leituras.

 

Mergulha através de sua Câmera-profunda, entre fotografias antigas, documentos, bulas e caixas de remédios, receitas, ultrassonografias, mamografias,óculos quebrados, cartões em desuso, brincos antigos, bilhetes e outros objetos guardados, e  confunde as noções de profundidade do espectador pelos detalhes e limites entre uma imagem e outra. Em algum momento, pelo seu próprio movimento, percebemos que estamos no quarto de Edna e que nossos olhos, assim como os dela, iriam acompanhar a arqueologia de sua presença sobre suas memórias. A cineasta revela objetos acumulados pelo tempo, despeja caixas de remédios que parecem estar reservadas para um momento em específico, ainda não determinado até o momento em que a câmera  surgisse em seu quarto – agora estúdio de si.

 

O filme experimenta textura e transparências, posiciona exames de raio x contra a luz do sol, contrapõe espaços de evidência e de pontos-cegos, elabora a diversidade e complexidade de si: aborda sobre suas partes de dentro, suas partes de fora. Lembra do seu passado e do seu presente como experiências imbricadas, que guardam em comum seu corpo, com frequência mencionado em relação à Fibromialgia. 

 

A cineasta fricciona o toque de sua mão com a superfície das caixas e das fotos e transforma a lembrança em uma experiência palpável ainda que imensurável, como a água de um rio que se toca à noite. Ativa momentos de autoficção que questionam os diagnóstico e as dores, e percebe na indústria farmacêutica, um setor neoliberal com responsabilidade sobre a  produção e manutenção dos sofrimentos psicofísicos da sociedade contemporânea. 

 

Este trabalho me faz entender que corpo e mente, pensar e sentir, não são questões separadas, como nos impõe o mundo ocidental, e que a memória sobre o sentimento e a sensação, nunca é como sentir da primeira vez. Mas é somente a partir da reflexão sobre a experiência, que se pode produzir outros pontos de partida para o corpo, como é o caso das corridas, trilhas e medalhas de Edna.  Lembranças físicas que suas mãos se moveram para buscar e segurar, materialidades que podem ocupar espaços em seu quarto antes ocupados pelas caixas de remédio. 

 

Se assistirem logo em seguida O Segundo Antes da Coragem: Experimento 1 (2020), talvez fiquem com uma impressão parecida: a experiência em assistir se desloca de uma visualidade concreta sobre as imagens para uma compreensão líquida, fugaz, ingovernável sob uma forma só, que reúne, conhecimento e técnica de duas cineastas – uma atriz (Grace Passô) e outra fotógrafa (Wilssa Esser) – para mirar o olhar fixo a um ponto instável, produtor de infinitas multiplicidades de rostos, que se deformam e transformam, diluindo a fixidez de qualquer máscara (artes cênicas) e ficcionalizando um close-up (cinema) com o plano detalhe de um reflexo. 

 

As expressões do rosto partem de intenções incertas ao espectador e pensar uma lógica ou motivo seria extremamente impreciso. Entretanto, é interessante sentir como as possibilidade da face de Grace Passô, recusam à normatização de uma forma. A distorção com a água estabelece um tempo de espera, como quem olha para um oráculo na busca de uma mensagem que não chega, de uma ideia que ainda não toma forma mas se movimenta antes de tomar corpo.

 

Curioso pensar este  trabalho na trajetória de Grace Passô, uma artista que há tempos desenvolve linguagens que muito vinculam o corpo à palavra, e que junto à Wilssa em O segundo Antes da Coragem, propõe  o corpo se manifestando sem qualquer texto e expandindo para uma presença outra entre as penumbras da imagem, do visível, do oculto e do indizível. 

 

Essa diluição do corpo e do sujeito que acontece neste filme poderia ser não somente uma experiência com começo e término pré-determinados, com a durabilidade e fixidez do tempo cinematográfico, mas com uma fertilidade propícia ao experimento com outros espaços expositivos e com tempos descentralizados – como galerias, museus, instalações – demarcando uma experiência próxima, se não compartilhada com o vídeo e o looping, linguagens e formatos bastante utilizados na Arte Contemporânea.

 

Se a relação digital entre cinema e vídeo são potencializadas nos filmes de Edna, Grace e Wilssa como suporte e linguagem a partir de materialidades e visualidades existentes, em @ Ilusão (2020) de Vitória Cribb essas propriedades plásticas se dão a partir de códigos, números binários e interpretação eletrônica de softwares. Vitória cria universos e personas a partir do contato com inteligências artificiais e torna visível em alguns momentos de seu trabalho códigos e  dispositivos de uso e de criação desse universo digital como reflexões sobre ser e estar em uma experiência virtual.

 

Apesar de sinalizar no início de seu filme um contexto histórico de crise sanitária e política, não se demora a nos mostrar a sinuosidade das relações virtuais. Através da ideia de “looping”, que talvez esteja expressa de formas diferentes em todos os filmes, Vitória recria diversos ciclos fechados: rostos que se transformam em expressões programadas, ansiedades e sentimentos circunscritos por ambientes pré-estabelecidos, códigos que se replicam em diversas texturas. Essa condição de repetição nem sempre é perceptível e muita das vezes  imposta de maneira a ser naturalizada, como as violências de vigilância e hierarquias socio-virtuais estabelecida pelo número de likes, ou de followers. 

 

Perceber as vulnerabilidades desse sistema virtual perpassa por entender a mídia e seus usos, como tecnologias e por isso extensões da sociedade. Entretanto, o projeto de construção do mundo moderno, hoje globalizado, parte de uma programação das formas de estar, viver e perceber o mundo, que se sustenta em ciclos de crise, extermínio e subalternização. Ao contrapor homem e máquina, Vitória nos mostra que a relação no mundo virtual não seria tão diferente das imposições do mundo físico, carregando atualizações dos métodos de padronização das formas de ser.  Quem programa a repetição da condição de sofrimento? 

 

“Programação ininterrupta para meu amigo algoritmo” – Está escrito em algum canto do filme de Vitória e revela que entre as relações tecnológicas, existe uma dimensão afetiva, também manifestada no seu relato como fio condutor entre as imagens e o espectador, quase como um desabafo ou confissão, como no filme de Edna. Se percebe pelas mensagens, que através daqueles números exatos, também se poderia produzir presença, construir uma personagem e assim como nos dois outros filmes, expandir entre as possibilidades daquilo que é visível ou não. 

 

Vitória Cribb cria uma personagem cujo rosto carrega expressões, texturas, luz, relevos, cores a partir de comandos digitais pré-programados, renderizados em tempos diferentes. Nas distorções de Grace e Wilssa é produzida a presença e expandida pela dilatação do tempo. A câmera subjetiva de Edna  que em movimentos encontra o próprio rosto em imagens estáticas. 

 

As faces e suas expressões, em todos os filmes, podem ser percebidas pela capacidade da memória em fabular e reelaborar o espaço, o tempo e a forma como nos enxergamos neles.  Faces essas que abrem possibilidades e recusas de identificação, empatia e projeção de ideias para um corpo. É pelo rosto que nos olhamos nos olhos, dentre as penumbras dos diversos caminhos. 

 

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Por Lorran Dias