Sapata da Memória, por Anne Santos

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O contexto atual, de confinamento social estendido (para as pessoas que puderam quarentenar) e de conjuntura político-econômica violenta, provocou reflexões sobre os nossos modos de vida, nossa relação com a natureza, de como a gente chegou até aqui impelidos pelo ritmo voraz do sistema capitalista. Na tônica do desmonte desenfreado, com ataques sistemáticos à cultura, visto explicitamente no âmbito no cinema no descaso com a cinemateca, reflexões acerca do que nos alicerça tem ecoado no meu dia a dia. Nesse sentido, a preservação da memória, contribui, dentre outras coisas, para não reproduzirmos os erros históricos, sistematicamente impostos por uma narrativa majoritariamente branca, colonial, patriarcal.

Nesse período pandêmico, ao caminhar pela Praça Mauá, zona portuária do Rio de Janeiro, com todos os cuidados que o momento exige, tem reverberado com força como esse território carrega o ciclo morte-vida, lugar onde tantas pessoas escravizadas chegaram e inúmeras foram enterradas. A importância de refletir sobre legados históricos, perpassa pelos ritos que estão inscritos nas experiências, nos corpos, nas vidas. Ou seja, tudo aquilo que fundamenta a memória, o que a estrutura, está inscrita nos ritos. No ato ritualístico, ativamos memórias e a partir disso podemos nos fortalecer, bem como ressignificar nossos processos, nossa ancestralidade, quem somos. Tempo circular do rito, das festas, do ciclo morte-vida, como nossa força motriz.

‘Fartura’ e ‘Memórias do subsolo ou o homem que cavou até encontrar uma redoma’ tocaram nesse lugar da sapata que nos constitui e provocaram reflexões sobre: que cinema fazer, curar, exibir. Os dois curtas trabalham com materiais de arquivo, ‘Fartura’ com fotos e vhs de famílias negras que puderam realizar registros do final da década de 90 início dos anos 2000; e o ‘Memórias’ também com registros de álbum de família, alternados com imagens de noticiais e de personas do cenário político brasileiro.

Os dois filmes trabalham com memória, contudo num movimento contrário, ‘Fartura’ reconecta ancestralidade, ‘Memórias’ apaga, rasga e cria uma redoma, costuradas pela voz over ‘há muito quero lhes falar na cara eu sou a imagem de grito’. Ambos evocam a sapata de nossas memórias, o alicerce, princípio fundante; um na potência da gira da reconexão e o outro na potência imagética da ruína.

Que os caminhos da materialidade da memória estejam abertos para construir, demolir e reescrevermos nossas narrativas cinematográficas, inscritas no espiralar do tempo.

Anne Santos

Anne Santos nasceu em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, RJ. Atua como técnica de som direto e produtora. Integrante do Coletivo Mate com Angu. Participa da equipe de curadoria da Semana de Cinema desde 2018.