SESSÃO 39 – ENCENANDO FUGA

29 de junho a 06 de julho de 2021

Curadoria

Caique Mota Cavalcante
curadoria Caique

Sobre

É necessário que coloquemos em prática nossa capacidade imaginativa da forma mais radical possível, uma imaginação preta que interrompa o ciclo de violência perpetrado pelo mundo tal como conhecemos. Fomos informados que o poder opera por ficções, e sendo assim, tudo aquilo que hoje existe, foi anteriormente imaginado. Nesse mundo, esse em que vivemos, a violência é racionalizada, pensada, milimetricamente gerida e distribuída sobre os corpos (e mundos) que se tenta controlar e extinguir, é parte de uma dessas ficções de poder. Essa mesma violência, que opera sobre o corpo daquelas sujeitos desviantes e fugitivos, também nos colocou num ambiente onde imaginar fosse quase impossível; sempre foi parte do projeto colonial destruir, ou ao menos cercear nossa capacidade imaginativa. Por isso é urgente que passemos a imaginar outros mundos, estendendo nossa imaginação em todas as direções possíveis de forma elástica e criativa. A fuga, aparece aqui enquanto uma das possibilidades de se desvincular desse mundo e combatê-lo desde o seu interior. O fugitivo, é o sujeito que se desloca dos caminhos estabelecidos pela norma forjando outras cartografias, e a partir do corte com o Mundo como tal, possibilita a criação de outros mundos.
Nessa sessão, ambos os filmes se comportam como ensaios (ou encenações) de fuga desse mundo que insiste em permanecer de pé. Sem que se apresente necessariamente caminhos a seguir, somos informados daquilo do que se pretende fugir. Em “São Paulo é outra coisa” (2020) de Lucas Wickhaus e Vinicius Oliveira, a maquinária capitalista em sua última atualização oferece sob a máscara do empreendedorismo e de uma suposta autonomia, precarização, exploração e subemprego, afetando principalmente a vida de jovens negros e pobres das grandes metrópoles brasileiras. A introspecção do personagem nos oferece uma pequena dimensão dos efeitos da “uberização” do trabalho, que aqui é, também, a “uberização” da vida. No interior dos fluxos e das políticas de morte, o capital e o racismo, ditam, mesmo a nossa revelia, quais vidas merecem ser vividas e preservadas, e quais merecem morrer e serem extinguidas.
Já em “Pitar” (2020) de Maya Guedes, penetramos num outro ambiente, também de clausura e austeridade, aqui o corpo insistentemente se desvencilha daquilo que o ameaça. O cigarro enquanto dispositivo da ansiedade, materializa algo mais, para além de seus já sabidos efeitos. O ato de fumar, ou pitar, não aparece apenas enquanto fonte de escapismos, porque consciente disso, o filme nos informa da impossibilidade dessa missão. Num contexto de precarização feroz da vida, em especial daquelas já historicamente violadas pelo poder das ficções colônias, o corpo negro – todos aqueles desviantes e fugitivos – se encontra cada vez mais suscetível ao adoecimento físico e psicológico. Por um momento temos a impressão de que o corpo ali retratado, flutua; numa espécie de sublimação, se transforma vagarosamente em fumaça, nesse instante o
ambiente austero é rompido, somos guiados pela música e os movimentos do corpo. O movimento de quebra anuncia o início da fuga, novas rotas são inscritas, o fugitivo, sujeito afeiçoado as confabulações, sabe também que nesse percurso a imaginação é sua maior arma, e que só por meio dela é possível reimaginar o mundo.

Filmes e debate

SÃO PAULO É OUTRA COISA

3′ | 2020 | São Paulo (SP)

Direção

Lucas Wickhaus e Vinicius Oliveira

Classificação

Livre

PITAR

4′ | 2020 | São Paulo (SP)

Direção

Maya Guedes

Classificação

Livre

ENCENANDO FUGA

06 de julho de 2021 às 20h

Debatedores

Maya Guedes (PITAR), Lucas Wickhaus (SÃO PAULO É OUTRA COISA), Vinícius Oliveira (SÃO PAULO É OUTRA COISA). Mediação: Caique Mota Cavalcante (Curadoria)

Classificação

Livre