Texto Curatorial – PATRIMÔNIO AUDIOVISUAL E OS DISSIDENTES: ENTRE A INVISIBILIDADE E O NÃO LUGAR

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Para além das categorias canônicas, como ficção, documentário, animação, podemos encontrar outros tipos de filme em arquivos audiovisuais que acabam enfrentando dificuldades para serem categorizados e catalogados e, dessa forma, acessados e difundidos. A fim de lançar luz sobre esse tipo de material, resolvi reunir alguns deles nesse programa especialmente realizado para a Semana e chamá-los, por ora, de dissidentes. A dissidência nos remete à discordância em relação a um poder instituído e esses filmes, ao escapulirem de classificações mais delimitadas, assumem essa faceta. Que pode ser encontrada em diferentes níveis, formas e aspectos ao longo da história, tanto em títulos do passado como na obra contemporânea que compõe a sessão, que se utiliza de uma imagem de arquivo pessoal de maneira bem particular, criando dissonância em seu significado inicial.

Uma das intenções desta sessão é mostrar a diversidade, a riqueza e a importância do patrimônio audiovisual brasileiro, com ainda tantas preciosidades a serem descobertas. E também para celebrar o Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual, comemorado em 27 de outubro, e chamar a atenção para a luta que as instituições de memória têm enfrentado no Brasil nos últimos tempos.  

 

Os filmes

 

A sessão é composta por Cinema contemporâneo, pérola de Felipe André Silva (2019), que consegue, em apenas cinco minutos, ressignificar um trauma de infância através de um único registro fotográfico familiar. O quanto pode uma imagem? 

 

Em Rio, uma visão do futuro, de Xavier de Oliveira (1966), produção do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), retornamos ao Rio de Janeiro da década de 1960. O diretor, após ter ganhado o primeiro prêmio do Festival Amador JB Mesbla em 1965 com Escravos de Job, conquistou a chance de dirigir um curta para o instituto. Misto de documentário e ficção científica, o filme apresenta o ambicioso projeto arquitetônico vertical de Sérgio Bernardes para uma cidade que está sempre em (re)construção. O título faz parte do acervo do Centro Técnico Audiovisual (CTAv). 

 

O Setor de Rádio e Televisão (SRTV) da Embrafilme produziu diversas reportagens sobre questões relacionadas ao cinema brasileiro, realizadas entre o final dos anos 1960 e 1980. Desse material único, raro e pouco difundido, trazemos a reportagem 344, uma breve e deliciosa conversa com Zezé Macedo sobre o recém-lançado Ele, ela, quem? (1977), último filme dirigido por Lulu de Barros, que tem Adélia Sampaio como diretora de produção. Esse filme também faz parte do acervo do CTAv. 

 

Voyage au Brésil, de Vital Ramos de Castro (1927), foi lançado inicialmente em Paris e pode ser considerado um documentário de “propaganda”, cujo intuito era difundir as riquezas do Brasil no exterior. Ramos era um dos maiores exibidores cinematográficos do Rio de Janeiro na primeira metade do século XX, e nesse filme conseguiu reunir mais de dez mil metros de registros raros de variadas fontes, mostrando aspectos de diversas regiões e manifestações culturais do país. Os fragmentos sobreviventes do filme, que totalizam cerca de 30 minutos, demonstram a força e a beleza dessas imagens. O arquivo digital foi cedido pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. 

 

Viva o patrimônio audiovisual brasileiro e os profissionais e instituições que se dedicam ao trabalho de preservação! Boa sessão!

Débora Butruce

Preservadora audiovisual, pesquisadora e produtora cultural. Doutoranda no PPGMPA da ECA-USP, com projeto de pesquisa sobre a restauração de filmes no Brasil. Realizou doutorado sanduíche na New York University, no Moving Image Archiving and Preservation Program (MIAP). É mestre em Comunicação e graduada em Cinema, ambos pela UFF. É profissional da área de preservação e restauração audiovisual desde 2001, com atuação no Brasil, em instituições como a Cinemateca do MAM-RJ, o Arquivo Nacional e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), e também no exterior. Realizou especializações na Inglaterra (British Film Institute), Itália (Laboratório de Restauração de filmes L’Immagine Ritrovata), Cuba (Escuela Internacional de Cine y Television) e Espanha (Filmoteca Española). Membro fundador da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), é integrante da diretoria desde 2014, sendo a atual presidente. Foi uma das fundadoras do Cachaça Cinema Clube, cineclube dedicado ao cinema brasileiro que ocorreu mensalmente no cinema Odeon, no Rio de Janeiro, entre 2002 e 2015.