Texto Curatorial – TRÂNSITOS DO REAL: DA MEMÓRIA AO SONHO, por Isabel Veiga

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2020: um ano marcado por tantas perdas – as muitas vidas que passaram poderiam ter sido evitadas, sob um governo que vira as costas para o Brasil e só recrudesce a necropolítica -, a perda de nós mesmos – já não sabemos quem somos, o que mesmo estamos fazendo aqui -, a perda de futuro – para onde vão nossas apostas em uma realidade que aponta para nossa autoextinção?

A sessão composta pela estreia mundial de Levantado do chão (2020), de Melissa Dullius e Gustavo Jahn (Distruktur), e Seiva (2010), de Louise Botkay, são dois filmes que, cada um à sua maneira, afirmam recomeços, trânsitos, experiências de estranhamento (espanto e encantamento) diante daquilo que não podemos explicar – as conexões relacionais que fogem ao nosso controle,  engendrando desvios….mutações, processos pelos quais somos capazes de nos reinventar. Filme premonitório, finalizado antes da pandemia, Levantado do chão consegue atualizar de forma impressionante a sensação de perdição e exaustão vivida em tempos de confinamento. Quando um bilhete de trem já não significa chegar a algum lugar, mas antes, vagar pelas ruas de Berlim, dormir e acordar como saltos espaço-temporais. A quebra da linearidade temporal e narrativa aqui se dá pela passagem desorientada entre a vigília e o sono do protagonista (Gustavo Jahn além de co-diretor
é também o ator do curta).

Em Seiva, o título já nos remete ao imaginário líquido de nutrição, que no filme se encontra com o sagrado. Em terras haitianas onde se pratica a religião vodu, uma adolescente recebe um sonho que abre os caminhos para seu ritual iniciático. A cosmovisão caribenha de origens africanas admite o sonho como fonte de sabedoria e comunicação ancestral, longe do caráter fabulatório apartado da realidade em boa parte da cultural ocidental cristã. Não por acaso, a força de ensinamento presente no
sonho vodu encontra ressonância nas cosmovisões indígenas brasileiras. Entre os Krenak, Ailton nos diz: “Se eu não sonhar com a viagem ou com um convite para sair de onde estou, significa que eu não vou. Nunca sei o que vou fazer antecipadamente. É uma orientação que pode ser pensada como mágica, mas, na verdade, é o nosso modo de vida. (…) Essa experiência de uma consciência coletiva é o que orienta as minha escolhas” (Ailton Krenak em “A vida não é útil” p. 38). Pensemos aí na potência coletiva (faço questão de marcar: não individual) do sonho, como algo que diz respeito
ao futuro da comunidade construído através de suas ligações cósmicas.

Duas direções para o problema da comunidade: alguém solitário que já não pode levantar sozinho versus aquela que efetua sua existência comunitariamente, com a força ancestral presente na família e nas entidades espirituais. Dois estados de vulnerabilidade, duas maneiras de pensar a necessidade de grupalidades para traçar a própria existência.

Existir através de Levantado do chão e Seiva é se abrir ao trânsito entre as dimensões do real, que aparece na ação torcida do tempo. A presença de lacunas e descontinuidades produzem uma modulação temporal que distorce a forma hegemônica da representação espaço-temporal muito calcada na linearidade progressiva e causal. Em ambos, ao contrário, experimenta-se a mistura entre os tempos: do vivido, do lembrado, do imaginado, do transe, do sonhado. Por último, o uso da película 16mm faz-se presença notável. Ela é integralmente usada em Levantado do chão e mesclada com o digital em Seiva. Somos então convocades a pensar como produzir em película hoje e qual seria a sua contribuição para a construção de imaginários na contemporaneidade, como também sua força em
fazer transladar a percepção habitual, forçando a ultrapassagem de automatismos.

Boa parte da obra desse três cineastas está disponível em suas redes sociais (links logo abaixo). Convido vocês a verem os dois curtas aqui apresentados e debaterem conosco dia 29/09 às 18h pelo youtube da Semana de Cinema.

Desejo a todes uma ótima sessão.
Louise Botkay: https://vimeo.com/louisebotkay
Melissa Dullius & Gustavo Jahn (Distruktur): http://distruktur.com/

Isabel Veiga